Singular – Socorro a garantia sumiu

Tendemos a nos debruçar demasiadamente sobre os processos, em especiais os creditícios, e isto faz com que alguns aspectos vitais da gestão passem a ser perigosamente esquecidos, ao ponto de colocar em xeque a integridade da carteira de crédito e, por conseguinte a nossa tão combalida Governança Coorporativa, sobre a qual ainda engatinhamos. Adiantamos que nossa experiência de mais de quatro décadas neste mercado nos permite afirmar que o conteúdo deste artigo não é exclusividade das Cooperativas de Crédito, já que se verifica nos bancos, em menor escala.

Acompanhamos a extrema preocupação em obter garantias reais como carros, equipamentos, imóveis, estoques etc, onde na grande parte das vezes são eficazmente compostas para um eventual acione. Para alguns gestores e líderes tudo parece estar perfeito, mas para nós há uma grande falha que não é identificada nem mesmo pelos controles internos, auditorias e órgãos reguladores.

Refiro-me a manutenção da qualidade da garantia durante o processo vigente da dívida. Pergunto: Ao final de cada período de um ano, até o vencimento final da dívida, os bens dados em garantia têm vigente uma apólice de seguro resguardando o valor venal do bem, e que dá a Singular à posição de primeira beneficiária? Provavelmente muitos responderão de forma evasiva, pois focam a formalização da garantia, esquecendo de acompanhar a sua integridade e utilidade processual.

Origem do descompasso: Depois de decorrido um ano da concessão do crédito é muito provável que não haja em sua instituição um processo interno monitorando se os bem dados em garantia mantêm-se segurado com as mesmas coberturas iniciais e tendo a Singular como primeira beneficiária por mais um período de um ano. É comum vermos que o bem não mais está segurado.

Pensemos na seguinte situação: Um carro dado em garantia teve validado todos os detalhes na formalística e da constituição da garantia onde o seguro do primeiro ano teve a Singular como beneficiária. Nos anos seguintes, se este carro for roubado, ou tiver perda parcial ou total, qual é a garantia real desta operação?  Nenhuma. Esta mesma analogia pode ser feita com um imóvel com benfeitorias dado em garantia. Terá um reduzido valor frente à dívida caso venha a pegar fogo (ex) após um ano de vigência do crédito. Sem um bom acompanhamento do seguro, o risco se agrava.

Fica a reflexão: Muitos comitês de crédito se debruçam sobre uma análise creditícia de maior envergadura focando sua decisão na análise do porte da garantia. Ocorre que estes créditos tendem a ser longos e depois de um ano poucas Singulares buscam exigir do devedor a apresentação de documento que comprove a contratação e o efetivo pagamento do prêmio da nova apólice para mais 12 meses de seguros. Caso venha a parcelá-la pode ficar inadimplente já na segunda parcela colocando em xeque a garantia. Por que gastamos tanto tempo na análise e formalística da operação com garantia real e por falta de monitoramento a transformamos em “pó” após 12 meses?

Gerência de Garantias: As Singulares devem adotar um processo estruturado que mantenha estável e líquida a sua carteira de garantias, em especial as validando através de visita periódica e específica, visando à obtenção e confirmação da integridade da apólice e acompanhamento da manutenção da liquidez do devedor original. Isto, em conceito para garantias de créditos mais longos e vultosos, já que é muito arriscada a praxe de só focarmos esforços na liberação do crédito.

Revisão da CCB: Notamos que muitas Singulares adotam frágeis CCBs (Cédula de Crédito Bancário), em especial nos aspectos da garantia aqui explicitados. Seria prudente rever suas CCBs para que rezem formalmente que nas datas tais e tais o devedor deve comparecer a instituição com a nova apólice liquidada para os próximos 12 meses (ou no caso de parcelamento, mensalmente apresentar a liquidação da parcela). Bem como deve autorizar que, a qualquer momento, a Singular possa “visitar” o bem dado em garantia. E que em qualquer desregramento fica a dívida vencida e a garantia poderá ser acionada pelo credor.

Neste caso a Singular agravaria o risco para “H” visando ser coerente com os preceitos prudenciais da Governança Coorporativa. Portanto é temeroso mantermos nos riscos “a” e “b” centenas de devedores que não nos apresentaram a nova apólice de seguro do bem dado em garantia na qual nos mantém como primeiro beneficiário. Esta prudencial correção é coerente quanto ao risco e implica em enorme provisão e concomitantes drásticas reduções de Sobras. Por que postergar?

Reflexão Final: É temerosa a garantia real sem acompanhamento da sua integridade.
Concordar é secundário. Refletir é urgente.


Ricardo Coelho
Diretor da Ricardo Coelho Consult - Consultoria e Treinamento para Instituições Financeiras
Autor do livro: Repensando Banco de Varejo
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