Singular – Sobras medianas impedem a perpetuação

Há duas décadas atrás tive um cliente diferenciado: Sr. Otávio Cabral Gonçalves. Aos seus 60 anos bem vividos tinha um pujante supermercado na periferia e era um grande contador de histórias. Em uma tarde chuva de pouco movimento, após fechar a agência, tive a sorte de tê-lo em minha mesa. Conversando ele passou pontuar a beleza de perceber sinais que a vida e o mercado nos dá, sinalizando que alguma coisa relevante está escondida. Afirmava que aqueles que os descobrem tornam-se pessoas mais felizes ou melhores empreendedores. E deste então passo a perceber que as pessoas que mais facilmente vêem antecipadamente e com clareza estes sinais, tornam melhores seres humanos ou expoentes comercialmente.

Sr. Otávio tentava me alertar que quando todos viam os mesmos números e as mesmas tendências agiriam da mesma forma frente às oportunidades e aos riscos de mercado, não permitindo ganhos comerciais para sua perpetuação. E de uma forma dócil repetia que o quanto é muito ou pouco depende da régua que usamos para medir nossa felicidade ou ganhos. Dizia que após o nascimento de seus netos aprendeu que um beijo de cada um deles lhe dava mais prazer do que abrir mais uma grande filial de sua rede de supermercado. Mas, como um ávido empreendedor, após uma frase de emoção, argumentava que de alguma forma tinha que controlar sua emoção pois a melhoria de seus negócios teria que continuar já que muitas famílias dependiam desta sua atitude empreendedora. Porém enfatizava que estas melhorias não deveriam concorrer sobremaneira com os momentos com sua família, pois, no fim, somos um ser gregário e vivemos para as pessoas que amamos, e não para um CNPJ. Algo frio, desumano, não ético, de risco e muito mais mortal.

Mas o que o Sr. Otávio diria das Sobras que iremos levar em nossa próxima AGO? Não tenho dúvida que iria dizer que é pouco frente as reais oportunidades comerciais vividas. Apontaria a enorme riqueza de terceiros investida com risco em nosso modelo de negócio, seja pela altíssima concorrência, potencial inadimplência, dedicação de dezenas de pessoas dependente destes "emprego", ou pela baixa remuneração de nosso patrimônio na comparação com os fáceis ganhos se o aplicássemosem títulos públicos (inflação + ganho real). Neste contexto, apesar de ter postado inúmeros artigos sobre o tema "Rentabilidade & Sobras", fica explícito que é um descompasso comercial comparar as Sobras deste exercício com as anteriores. Deveríamos nos perguntar: Qual seria a régua de eficácia que deveria balizar a análise do resultado do Patrimônio da Singular em gerar riquezas a nossos sócios "capitalistas"? Qual é o real potencial da base de clientes e da praça?

Régua balizadoras de Sobras: Até aqui fica explícito que a Sobra a ser apresentada na AGO (sem juros ao Capital), deve ser maior que o ganho potencializado nas compras de títulos públicos de baixíssimo risco (SELIC). Caso contrário estamos dilapidando o patrimônio de nossos sócios, mesmo com a alegação que distribuímos benefícios reais aos nossos usuários durante o ano comercial que se encerra. Importantíssimo: Não cansamos de alertar que após a LC 130/09 não há qualquer relação entre o capital social dos sócios e os ganhos na Sobra da próxima AGO. Os usuários ganham Sobras sem qualquer correlação entre o volume que detenham de Capital Social.

Um novo encerramento de ano contábil se aproxima: Será que nossa Sobra a ser apresentada na próxima AGO realmente terá o brilhantismo de, após remunerar em 31/12 dignamente o Capital Social de nossos sócios (SELIC= Inflação + Ganho real), também manter ganhos extras aos usuários de nossas soluções que sejam reconhecidos como um belo ganho racional comercial?  

Reflexão Final: Sr. Otávio tenho muito a agradecer as centenas de ensinamentos com os quais me brindou. Certamente hoje, sou um pouco melhor por tê-lo como um cliente diamante.

Pensemos como o Sr. Otávio frente a nossa Sobra deste ano. Procuremos discretos sinais racionais que possam nos apoiar ou mesmo colocar em xeque nossas decisões executivas. Saibamos antever e agir frente a estes tênues sinais de riscos e oportunidades que tendem a ser relegados diante do frenesi ou êxtase do cotidiano.

É extremamente temeroso para a perpetuação de nosso modelo de negócio a pura comparação dos números brutos da atual Sobra com as anteriores, em especial se esta correlação for estendida a comparações com outras Singulares. A verdade é menos explícita que os entorpecentes números brutos e será julgada pelos nossos "capitalistas" e nosso mercado.


Ricardo Coelho
Diretor da Ricardo Coelho Consult - Consultoria e Treinamento para Instituições Financeiras
Autor do livro: Repensando Banco de Varejo
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