Singular – Teoria em excesso fere o Cooperativismo de Crédito

Há uma semana, ao final de um projeto de consultoria em uma grande Singular, fiquei conversando na sala de reunião com o presidente, que além de ser um antigo e ótimo cliente, é também um grande amigo. Assim, passamos a conversar sobre temas que, como seniores, nos deixavam desconfortáveis, frente à ainda fraca competitividade do nosso modelo de negócio. Ele comentou a respeito de dois temas os quais já havíamos debatido em outros encontros, e concordei que ele estava certo. Um era que há sinais claros que a governança não deslanchou, e outro era sobre os tributos que ainda tirarão o sono de muitos de nossos líderes que não se atentaram para a complexidade que é a condução de uma Singular, pois, por mais que não desejem acreditar, ela tem, sim, uma gestão tão complexa quanto às existentes em um banco de varejo massificado. Depois disso, selecionei dois outros temas para conversarmos. Um foi a retomada da questão de um recente artigo, no qual eu propus que a provisão, se bem administrada, deveria ser vista como uma saudável poupança. O segundo tema foi mais complexo, e abaixo passo a expô-lo, visando a permitir suas reflexões.  

Vamos ao segundo grande tema: Comentei com meu amigo que até meus 34 anos frequentei como aluno de forma ininterrupta as mais distintas salas escolares. Também disse a ele que tive a oportunidade de ministrar por quase 20 anos aulas de marketing e vendas em universidades e pós-graduações. E que, apesar de meus 54 anos, anualmente sempre me inscrevo em alguns cursos rápidos e seminários para reciclar e aprender novos temas. Ou seja, posso dizer que a academia e suas teorias foram temas de centenas de horas de estudos e não há como negar sua relevância em minha estrutura mental quando busco orientar meus clientes e alunos, ou mesmo quando escrevo artigos sobre o cooperativismo de crédito. Mas que, apesar deste meu passado acadêmico, há uma série de conjecturas e reflexões que me deixam desconfortável ao ver o enorme impacto das teorias acadêmicas causam sobre as tomadas de decisões em nosso modelo de negócio.

Relembrei meu amigo que havia vivido por quase três décadas como profissional em um grande banco onde enfrentei fortíssimas crises econômicas, todas agravada pela altíssima inflação. Nessa época estudei em uma universidade americana e lá pude observar que aquela população vivia uma enorme bonança econômica e social, e assim, para eles, tudo poderia ser explicado por suas teorias acadêmicas existentes, ou as novas que lentamente eram desenhadas. Agora, nos últimos 20 anos, vivo a “bonança” social e econômica como chefe de família e mantenho uma relação direta com a mesma profissão. Assim sendo, disse-lhe que este relato histórico me permite ponderar que os negócios, com destaque ao cooperativismo de crédito, que cresce nesta bonança, está demasiadamente impregnado por “ditas” novidades teóricas, usualmente “descobertas” pela junção de algumas premissas óbvias para os novos empreendedores e jovens líderes de sucesso. E que estas novidades acadêmicas obrigatoriamente têm de ser vendidas usando terminologias em inglês para que ganhem pompa e notoriedade científica, algo que já se via diretamente na denominação de muitos cargos no cooperativismo de crédito que são rotulados em termos em inglês, mesmo que esses passem 99,99% do tempo atendendo a sócios e potenciais clientes brasileiros.  

Percebi que o tema interessava-lhe, e conclui minha contextualização. Comentei que ele sabia que aprecio as histórias da Primeira e Segunda Guerra Mundial, onde a necessidade de ser prático e criativo frente à sobrevivência superava qualquer outro esforço teórico imaginário. Mas que, em época de bonança, como esta vivida em nosso país há quase duas décadas, observa-se o pleno emprego da mão de obra, oferta generosa de investimentos e créditos, mercado comprador, inflação baixa etc. Ou seja, estávamos vivendo um cenário ideal para que todos da academia possam ter sugestões para “novas” correlações mercadológicas e propensas conjecturas. Mas, a meu ver, o que de fato ocorre é que, não havendo escassez de meios de produção e um mercado hiperaquecido, não se vê o princípio da urgência e sobrevivência a qualquer custo. Assim, estuda-se com muita calma cenários futuros, faz-se facilmente belas conjecturas, prevendo ainda mais bonança e passa-se a buscar correlações sistêmicas para explicar obviedades, já que cada vez menos temos no corpo docente profissionais que viveram a crise que anteviu a atual calmaria econômica. Esses docentes mais arrojados tendem a ser alocados em cargos de diretorias docentes, como líderes e diretores empresariais ou ocupam cargos políticos de relevância.

O presidente concordava, anotando alguns pontos da minha explanação, sem querer que o tema sofresse interrupções. Comentei que em época de crises como as econômicas, políticas, crise de empregabilidade e guerras, há urgência em alocar todos os meios de produção, inclusive as mais brilhantes mentes, na busca de soluções simples, baratas e óbvias frente o estresse já instalado. Isso torna descabido desenvolver ou discutir novas teorias acadêmicas, fazendo-as passarem despercebidas. Em época de elevado estresse as teorias não tem destaque, pois como logo cedo aprendi: criança com fome não aprende, e o óbvio deve ser feito e não desenhado.

Pedi gentilmente que me emprestasse a folha onde fazia anotações. Passei, então, a desenhar um triângulo em alusão à pirâmide de necessidades do sociólogo judeu Maslow. Comentei que deveríamos ser mais prudentes ao aprendermos ou, ainda, ao usarmos como verdade a teoria por ele internalizada nessa figura geométrica, onde cada pessoa tem de "escalar" uma hierarquia de necessidades para atingir a sua autorrealização. Esse grande pensador nasceu em 1.909 e desenvolveu esta teoria há 70 anos ao estudar o conflito entre negros e judeus em Connecticut, que é o terceiro menor estado americano. Perguntei a meu amigo se seria coerente dizer que os 120 milhões da nossa nova classe média estão com seus valores hierarquizados como nesta pirâmide, e se da mesma forma primeiro buscariam suas necessidades fisiológicas e depois segurança. E somente, então, buscariam a autoestima e a realização pessoal.  Pela observação do cotidiano, percebemos que seria incoerente aplicá-la em nossas decisões comerciais, pois a autoestima e o status são valores que ganharam mais destaque que as obviedades da base da pirâmide deste grande pensador da época. Fica explícito que nossos ícones do varejo como Casas Bahia, Magazine Luiza, Silvio Santos, Boticário, Bradesco, entre outros, não seguem esta teoria. Concordamos que tudo continuará mudando cada vez mais rápido e que, como nós, as teorias acadêmicas são passageiras e tendem a se enfraquecer, dando lugar a novas teorias que novamente irão alinhar, de forma inusitada, velhos e simples preceitos comerciais e de gestão.

Meu amigo presidente fez um comentário que confirmava essa linha de raciocínio. Lembrou-me que há alguns anos usou em seu TCC um artigo que escrevi, no qual destacava que estamos dando equivocadamente muito destaque ao considerado “atual” BSC –Balanced Score Cards. Algo vendido pela academia como inovador e detentor de resultados, se aplicado na íntegra. Mas que, se o analisarmos friamente, veremos que propõe a comunhão de quatro obviedades adotadas pelos melhores empresários e generais, cujo plano de ação e sua aplicação é base racional para a obtenção do sucesso. É nulo o pensamento sem ação.

Pedi, então, para que meu anfitrião passasse a analisar junto comigo o desdobramento da lógica desse raciocínio anterior. Passei a destacar a dita “necessidade” de termos as novas teorias rotuladas da língua inglesa como algo indispensável, especialmente através do uso de siglas que denotem imponência ou uma bela sonoridade. Relembrei o meu amigo que já é comum vermos em nosso modelo de negócio cargos de gestores médios e seniores rotulados em termos rebuscados em inglês, mesmo que 99,99% de seus atendimentos sejam destinados a sócios e potenciais clientes simples e brasileiros.

Relembrei que, após vinte anos no Banco Bamerindus, trabalhei mais oito anos no banco inglês HSBC, e que lá vivi esta realidade onde tudo era em inglês e dito de forma pomposa, seja nas ações comerciais, nomes de departamentos e cargos, ou mesmo nas mais simples ações do cotidiano, chegando ao ápice desta adoção, quando o banco elegeu o “know-how” como um de seus quatro pilares no mundo e no Brasil. Brinquei dizendo que acreditava que mais de 99% de seus clientes e funcionários ainda hoje não sabem o que isso quer dizer. Um termo que significa literalmente "saber como". Ponderei que não é por ser uma empresa mundial, que ganharia algo usando esta desnecessária plástica sonora em um país tão complexo, simples e díspar como o nosso, onde 95% de seus funcionários e clientes não têm fluência neste idioma. E o incrível aconteceu. Funcionários que dominavam a língua inglesa passaram a ser colocados em posições de destaque na empresa, mesmo que fossem medianos comercialmente, algo que está custando caro a este banco. Concluí dizendo algo que ele já ouviu de mim dezenas de vezes: a única língua que deveríamos ser fluentes é o “clientês”, que é aquela que nos faz entender e atender a única fonte de renda e de perda que se tem conhecimento, já que teoria não paga a conta. Muito menos, ações, departamentos e cargos em inglês!

Conversamos longamente sobre os desfechos dessas exposições de motivos. Ao levar-me ao hotel, meu amigo e presidente lembrou-me que esse assunto poderia ser tema de um artigo, já que tenho como prática compartilhar meus pontos de vista com os cooperativistas de crédito. Então, após me comprometer a escrever um artigo sobre isto, disse-lhe que ainda restava uma pequena conclusão da ponderação anterior. Falei do enorme esforço em aprendermos a língua inglesa para sermos “globais”, e também dos preceitos e modismos acadêmicos que estão retratados em milhares de livros escritos nessa língua, os quais são a base de nossos cursos de graduação e especialização. Argumentei que reconheço esta necessidade, mas que sinto que o óbvio está sendo relegado a um segundo plano, pois diante de um mercado ainda comprador, há uma grande chance de toda e qualquer ação baseada em modismos acadêmicos e terminologias inglesas darem certo, inclusive CRM - Customer Relationship Management, BI - Business Intelligence, Coaching, CEO - Chief Executive Officer etc. Perguntei-lhe o que estamos fazendo de prático frente à aproximação de um mercado mais agressivo e recessivo, pouco líquido, mais regulado, mais tributado etc. Ele respondeu que realmente veremos que será fraca a utilidade dos modismos acadêmicos que compramos como novidade nessas duas últimas décadas, e que todos trazem antigas e óbvias teorias e práticas de formas remodeladas, muitos termos imponentes em inglês e uma linda plástica visual em suas explanações. Explanações estas que estão sendo apresentadas a um público que cresceu e só viveu a bonança, ou seja, em uma calmaria que é a mesma realidade que permitiu a estruturação das teorias em língua inglesa que irão aprender.

E sobre as quais ressalto que tendem a ter um enorme retardo até chegar às nossas salas de aula de gestão espalhadas pelo Brasil. Vejamos: após sua concepção, passamos a uma lenta e formal construção, debates, lançamento do primeiro livro que deverá concorrer com outros milhares de livros até virarem best-sellers, para que, assim, somente depois disso, consigam obter espaço nas faculdades mais renomadas do mundo. Em seguida, gradualmente, estas teorias chegarão às salas das melhores escolas de gestão nacionais, haja vista a enorme carga de novidades acadêmicas de gestão permitidas pela época de bonança. Só depois e lentamente chegarão a todas as demais faculdades e cursos de pós-graduações espalhados por nosso imenso país, onde muito provavelmente está sua Singular. Esse processo, desde sua concepção até chegar a nossas salas de aula, em nossa região, acreditamos que seja de um percurso de mais de 15 anos. Nesse contexto temporal, não ponderamos se nossas cooperativas de crédito terão tempo e capacidade de aprender e implementar essas novas teorias e práticas, tudo isto, ao mesmo tempo que deverão manter bem gerido o cenário e o processo administrativo atual, chamado nestes processos de mudança, pejorativamente e erroneamente, de “legado”. Este prazo de 15 anos é uma eternidade frente aos riscos, urgência e desafios de nosso mercado. Como reforço a esta abordagem, comentei que acho ainda muito rica a filosofia de gestão internalizada pelo Kaizen, algo que estudei na graduação no início da década de 1980. Essa teoria foi desenvolvida pelo Japão depois dele ter sido destruído após a Segunda Grande Guerra. Algo simples e estruturante que exprime a forte filosofia de vida oriental, que propaga a melhoria contínua para a busca da perfeição na indústria, na gestão e na vida.

Reflexão Final: Espero que a clareza deste artigo que abarca um assunto sobre o qual desconheço registros acadêmicos, possa ser tema de tese de algum jovem que queira desafiar o atual status quo acadêmico e o uso desnecessário de terminologias na língua inglesa no cooperativismo de crédito, defendendo, então, que persigamos a simplicidade, obviedade e mudanças graduais em nosso modelo de negócio, tão ricamente internalizada no modelo Kaizen de gestão. 

Prezado amigo, agradeço por sua rica amizade e parceria. Sempre que compartilhamos nossas ideias crescemos e aprendemos a nos respeitar ainda mais.

Concordar é secundário. Refletir é urgente.


Ricardo Coelho
Diretor da Ricardo Coelho Consult - Consultoria e Treinamento para Instituições Financeiras
Autor do livro: Repensando Banco de Varejo
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