O impacto da baixa dos juros na Caixa e BB no Cooperativismo de Crédito

A notícia abaixo sinaliza que nós, cooperativistas de crédito, devemos colocar a barba de molho, pois irá, sim, afetar nossos diferenciais competitivos. Agora, mais do que nunca. É a hora de buscar o eficaz relacionamento com nossos sócios como antídoto para estes tsunamis que doravante irão surgir. Relacionamento, sim, e não a frágil decisão de focar na venda de um produto ou serviço isoladamente.

O centro da questão
Nesta segunda – 09/04/2012 – os grandes bancos públicos – BB e Caixa –  irão anunciar taxas de juros de primeiro mundo, ou seja, uma jogada política e populista de enorme envergadura, mas de efeitos de médio e longo prazo nada saudáveis para a livre economia de mercado e, portanto, para nosso modelo de negócio.

O BB e Caixa irão praticar após segunda feira taxas baixíssimas, a saber:

Cheque especial PJ e PF                    média de 8,0% a.m.    para média de 1,4% a.m.
Crédito parcelado 36 meses               média de 3,5% a.m.    para média de 1,6% a.m.
Rotativo de Cartão de Crédito          média de 9,0% a.m.    para média de 3,0% a.m.
Financiamento de Veículos                média de 1,8% a.m.    para média de 0,9% a.m.
Crédito Consignado                           média de 2,2% a.m.    para média de 0,8% a.m.

Efeito perverso no mercado de ações

Após o anúncio da medida no final desta semana, as ações dos bancos privados chegaram a cair 6% em um dia, inclusive o do Banco do Brasil. Aí mora o perigo. Pois a Caixa tem um caríssimo custo operacional e é focada no fomento e nos repasses de benefícios sociais. Portanto, vive recebendo aportes a fundo perdido do governo para dar continuidade as suas atividades sem ter foco macro na eficácia comercial. Mas não podemos falar o mesmo do seu coirmão Banco do Brasil. Ele é uma empresa de capital aberto e deve satisfação e retorno a seus acionistas, dos quais um deles é o governo federal. Ou seja, os acionistas do BB irão exigir retratações pelo uso de seus investimentos com viés político. Eles são investidores esclarecidos e não irão aprovar que suas poupanças se dilapidem por uma ação populista, intempestiva, incoerente e de eficácia macroeconômica questionável.

Um pulo mercadológico da Caixa e BB depois de uma canetada

Sem dúvida na crise internacional de 10/2.008, os bancos privados retraíram seus créditos, perdendo mercado para a Caixa e BB, haja vista estes terem aproveitado para alavancar suas carteiras de financiamentos empresariais. Contudo, não tiveram o mesmo efeito sobre suas carteiras de pessoa física, a não ser aquelas que tinham vínculo com benefícios sociais como aposentadoria e financiamentos de veículos.

Seguindo esta mesma lógica, estes bancos públicos devem novamente avançar seu posicionamento mercadológico, mas agora não pela sua eficácia comercial, e sim por uma determinação política – uma canetada - com a alegação e intenção dita de correção do fluxo da economia. Estes bancos se não fossem públicos já teriam quebrados várias vezes, após terem sido usados em ações políticas e abruptas, haja vista as inúmeras vezes que foram socorridos com enormes recursos a fundo perdido.

A história se repete

Esta ação terá um ruidoso e desnecessário efeito no mercado, lembrando muito quando em 1.990 Collor chamou nossos carros da época de carroça e, sem critério, abriu o mercado para os importados. Claro que após duas décadas podemos aproveitar desta abertura, mas não há dúvida que o caminho não foi o mais coerente. Ou por que não lembrar de 1.990 quando a ministra Zélia, visando a atacar um problema estrutural da economia, usou como corretivo o bruto confisco da poupança, penalizando toda uma geração que poupava em confiança aos governos que a antecederam.

Devemos nos lembrar de outra ação desastrada muito parecida com esta, feita em 2.003 pelo implodido Banco Popular, hoje um cinzento setor do BB. Ele dava R$ 50,00 de crédito a taxa de juros baixa para todo cidadão brasileiro que não tivesse o nome sujo, com objetivo de “bancarizá-lo”. Diziam estar testando sua adimplência no crédito, na crença incongruente de que as pessoas humildes são, por natureza, empreendedoras e que honram seu nome. Consequência: tiveram uma inadimplência estratosférica e um fracasso total do projeto. Prejuízo faraônico para a sociedade.

Governança foi abatida

É inconsequente fazer estas ações populistas com o dinheiro do contribuinte, ainda mais em período eleitoral de um governo de esquerda moderada, ferindo brutalmente a Governança, que ainda nem atingiu a puberdade.

Os acionistas do BB irão fazer entrar cisco no olho deste projeto, se posicionando em pé de guerra. Esta enorme queda de rentabilidade fará com que os acionistas do BB tornem a gestão desta instituição um tormento além de uma procedente guerra judicial. Esta ação já mina fortemente o valor das ações do BB, acarretando terríveis sequelas ao modelo acionário de nosso mercado. Também colocou em cheque todo o projeto de Governança que dava transparência e governabilidade das instituições com ações em bolsa (ex: BB).

Inadimplência:

Agora, novamente basta o cliente ter o nome limpo e sem aval ou histórico na instituição, para que possa acessar uma linha hiperbonificada. Assim, desprezando os profundos estudos que determinam que a inadimplência deve ser precificada e aplicada na taxa de juros. Ao expurgá-la, algo errado e traumático irá acontecer. Inadimplência em alta e não precificada. Isto é brincar de roleta russa com um revolver totalmente carregado. Boa coisa não resultará, mas como tudo nestes bancos, por terem seus executivos com viés políticos, nada lhes acontecerá, e o errado será o mercado ou uma outra muleta qualquer.

Devemos lembrar sempre que a Caixa e BB têm histórico de serem apenas medianos em suas ações de cobrança da inadimplência de suas carteiras massificadas. Portanto, imaginemos como ficará doravante este processo, se sua carteira tende a triplicar em um curtíssimo espaço de tempo. Portanto, mais inadimplência, menos resultados, menos atratividade, menor valor da ação, custo maiores de capitação, e por fim, veremos novamente o governo aportando recursos externos para equilibrar as finanças da Caixa ou do BB. E assim, menos recursos para educação, saúde etc.

Vale ressaltar que um enorme percentual dos tomadores de crédito PF e os empreendedores tentem a já estar em seu limite saudável de endividamento. Dessa forma, o risco agrava-se, seja pela elevação destes atuais limites ou pela chegada de novos clientes sem histórico ou experiência diante destas dinâmicas e traiçoeiras linhas massificadas.

Qualidade do atendimento

Outro fato chama  a atenção. Se apenas 20% da massa de novos clientes projetados nesta ação procurarem o crédito “de graça”, ficará questionável o nível de seus atendimentos, já que atualmente não são balizadores de qualidade em atendimento. Ou seja, é baixa a qualidade dos serviços à população e clientes da Caixa e BB, em especial pelo custo de sua folha comparada a qualidade dos serviços dos bancos privados. Assim, ganharão mercado apenas uma canetada política, já que nada mudou em sua essência mercadológica.

Tenho conta da Consultoria na Caixa há 5 anos, movimentando um bom fluxo de recursos sempre pela internet. Nunca recebi uma visita ou um telefonema se quer. Meu cadastro não é atualizado desde a abertura. Creio que este atendimento tende a piorar, se isto é possível. No BB o atendimento a clientes medianos e pequenos também não é tão diferente. Nos bancos privados há uma pressão para que haja reciprocidade, e os bons clientes ou o potencial são monitorados para a perfeita parceria.

Portanto, após uma canetada da presidente, não podemos esperar que sem nenhum investimento em pessoas e equipamentos estes bancos sejam mágicos para dar vazão a este tsunami de demandas. Não será uma reunião com os gerentes das agências na quinta na véspera da páscoa que mudará este cenário, permitindo que se mude a logística da agência para absorver o impacto da enorme ação, que será potencializada pela forte mídia. Portanto, torceremos para que a ação não tenha nem 10% do projetado de eficácia quanto à elevação de fluxo de clientes novos a estas instituições, para que não cheguemos a verificar um padrão sofrível de qualidade de atendimento.

Por fim, devemos ser prudentes ao acreditar que o caixa automático e até o internet banking irão fazer sozinhos o papel de atender esta nova demanda por créditos e serviços. Focar fortemente no crédito é uma estratégia comercial perigosa, em especial para instituições massificadas. Devemos sempre buscar minimamente a coerência do relacionamento comercial do cliente com sua instituição financeira e não aceitar que nos usem como financeira, tornando-os “taxeiros” e descompromissados com o aprimoramento do relacionamento para ganhos estruturados e longos.

Fonte e custo do funding
Outro ponto de atenção que poderá minar esta ação é que a Caixa e BB anunciam que terão bilhões para emprestar a custo baixíssimo. Não há mágica. Todo recurso a ser colocado a disposição destas instituições para fazer frente a este mega projeto tem seu custo balizado pela Selic e poderá ficar ainda mais caro pela maior carência de recursos livres a disposição do mercado. Assim, nesta linha de pensamento, devemos lembrar que a Selic baliza o custo mínimo do dinheiro no Brasil, e que este está muito próximo da nova taxa média destes bancos, isto sem considerar outros custos.

Portanto, a conta racional não fecha e, para agravar, o custo do dinheiro é muito influenciado pela despesa com os salários, sendo que nestes bancos este custo chega a ser 3 vezes acima dos bancos privados. Assim, provavelmente irão apresentar prejuízo já nos próximos anos, pois suas receitas levaram uma dura queda, com elevação dos custos administrativos e de captação. Não se sobrevive no mercado vendendo melancia mais barato do que se compra, ainda mais tendo despesas administrativas tão acima do mercado.

E quanto ao funding, não é oportuno acreditar que a tábua de salvação serão os recursos originários do depósito à vista. Diferente do que muitos pensam, ele tem um custo elevado de processo, administrativo, compulsório, e, para piorar, ele oscila inversamente a liquidez da economia. Ou seja, ele cai quando mais a população precisa dele, e cresce quando esta está solvente. E sua média não é uma boa métrica para uma carteira de crédito de prazo acima de 6 meses, já que agride os preceitos de Governança. Portanto, Depósito à Vista é uma nervosa e custosa fonte de funding e não poderia alicerçar uma ação desta magnitude.

Resultado da Caixa e BB para 2.012 e anos seguintes
Esta ação irá elevar a carteira de crédito destes bancos, mas não seus resultados, além de agravar sua inadimplência e a satisfação de seus necessários acionistas (no caso do BB).

É uma ação política e intempestiva para o nosso momento econômico e desrespeita o fluxo da história. Certamente o mercado irá cobrar uma dura fatura destes bancos, pois há uma enorme redução da receita, sem cortar qualquer despesa. A conta não fecha.

Vale ressaltar que é uma ação mercadologicamente descabida, pois beneficia toda a carteira de clientes, sem qualquer respeito à história, aderência e a adimplência do cliente. E nunca foi saudável ter na carteira clientes “taxeiros”. Somos muito mais que financeira!

Reflexão final:
Este artigo traz reflexões para que junto a seus pares ponderem os prováveis impactos desta novidade mercadológica imposta pela caneta social da Dilma em ano de eleição. Apenas sugerimos que entendam o seu cenário local e não tomem nenhuma ação nestes próximos 30 dias, pois há uma boa possibilidade de ser uma marolinha para nós e um tsunami para a Caixa e BB.             Lembrem-se: Muita calma nesta hora.


Ricardo Coelho
Diretor da Ricardo Coelho Consult - Consultoria e Treinamento para Instituições Financeiras
Autor do livro: Repensando Banco de Varejo
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“Só o que muda, permanece” - Confúcio