A Deusa da Oportunidade do Cooperativismo de Crédito

É gratificante conviver com pessoas mais experientes e dispostas a nos aconselhar. Tive a sorte de ter como amigo por décadas um sábio senhor de quem tenho saudades. Recordo-me quando o procurei buscando conselhos diante de um grande desafio profissional, e ele com um sereno semblante de guru fez duas breves e singelas ponderações.

Primeiro argumentou que só crescemos quando admitimos que também erramos diante de qualquer erro coletivo, no qual somos uma engrenagem atuante, e que, portanto, é imaturo imputar este erro apenas aos outros. Depois disso, falou que tudo em nossa vida é cíclico e que raramente somos apresentados a “Deusa da Oportunidade”. Falou-me de uma parábola sobre uma mulher linda, nua e que passa poucas vezes por nossas vidas, mas que é careca e tem um tufo de cabelo na testa, por onde deveríamos agarrá-la. Assim, reforçou que deveríamos ser rápidos em absorver sua estranha beleza e entender seu dissimulado sinal, para não perdermos uma rara e grande oportunidade em nossas vidas.

Você deve estar se perguntando: O que o fato de não delegar aos outros os nossos erros e a questão do encanto da “Deusa da Oportunidade” têm a ver conosco? A resposta começa a surgir quando somos francos em responder o porquê do Cooperativismo de Crédito só desabrochar no Brasil após 2.003, mesmo sendo uma proposta centenária, coerente e vitoriosa em vários países.

Acreditamos que em 2.002 encerrou-se um grande ciclo de governos de direita patrocinados fortemente pelos grandes bancos, entre outros fortes segmentos concentradores de renda. Após isso, iniciam-se os governos de “esquerda moderada” – Lula e Dilma que apoiam e patrocinam abertamente a causa social internalizada pelo Cooperativismo como um todo. Tanto que, nestes últimos 10 anos, tivemos o maior crescimento histórico, em muito favorecido pelo advento e manutenção da livre admissão, dos benefícios fiscais, da isenção de IOF anual, do não recolhimento de depósitos compulsórios sobre depósitos à vista e a prazo entre outras benesses. Isto sem computar a imensa vantagem comercial por ainda termos um fraco sindicato funcional.

Consequentemente, acreditamos que muitas Singulares podem não sobreviver caso percam esta alavanca de sucesso. Portanto, é oportuno que saibamos aproveitar este tempo de bonança que nos resta deste ciclo de governos de “esquerda moderada”, alicerçando nossos pilares de competitividade e políticos, com vista a competir com as mesmas regras dos bancos de varejo.

Sintetizando os dois ensinamentos ao Cooperativismo de Crédito:

O primeiro ensinamento nos alertava que só aprendemos realmente quando admitimos nossas limitações e erros, e, portanto, mesmo com crescentes e ditos “belos” números, é perigoso não considerar em nossas análises que somos protegidos por um cenário de racionais benesses. Assim, como agentes vivos neste cenário, é frágil delegar que um fraco crescimento comercial é em função da maior inadimplência, de maiores custos, da agressividade “desleal” dos bancos etc.

O segundo ensinamento orientava a perceber os sinais discretos da “Deusa da Oportunidade”, que em nosso modelo de negócio se chama: Governos “moderados de esquerda”. Eles já estão no mando há 10 anos e ainda não fomos eficazes na absorção da bela injeção que nos deram para que sejamos suas eficazes ferramentas em seus projetos socioeconômicos. Ainda há tempo. Se tudo na vida é cíclico, então é prudente alicerçarmos nosso modelo de negócio para os novos e desafiadores ciclos que certamente virão.

Reflexão final: Em nosso mercado, o efeito de uma sequência de erros e de uma mediana eficácia comercial tem consequências previsíveis. Sejamos como a formiga. Ela não arruma culpados para um problema real e eminente como a escassez de comida no inverno. Foca em armazenar mantimentos durante a fartura promovida pelo bom tempo do verão. Esqueçamos a cigarra que no verão assovia banhando-se ao sol, e no inverno delega suas carências às agressividades do meio onde vive, pedindo ajuda para sobreviver, dando continuidade a um ciclo de dependência sem fim.

Façamos logo nossa lição de casa construindo fortes pilares e desde já nos esforcemos para que os próximos governos sejam também simpáticos ao Cooperativismo de Crédito ou apenas tenham que nos aceitar pela força comercial e representatividade política que construiremos neste período de calmaria. Vida longa a nós, pois só assim poderemos ser uma forte ferramenta social aos governos.


Ricardo Coelho
Diretor da Ricardo Coelho Consult - Consultoria e Treinamento para Instituições Financeiras
Autor do livro: Repensando Banco de Varejo
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