O elevado custo do Depósito a Vista no Coop. de Crédito

Custo Zero. Esta é a usual resposta de executivos e gestores de uma Singular quando perguntados sobre o custo do seu Depósito a Vista. Para nossa consultoria esta é uma visão limitada e turva que acarreta ineficazes decisões mercadológicas. Assim, pela relevância do tema e a proximidade do planejamento estratégico analisaremos a questão de custo zero de forma assertiva. Fique a vontade para discordar baseado em seus argumentos e nas especificidades de seu mercado e Singular.

1º grande custo - Estrutura
Onde deveríamos alocar os custos da estrutura de sistema, processo, executivo e de pessoas? Custos esses que permitem que haja o relacionamento cotidiano tradicional de um cliente com sua instituição financeira massificada? A facilidade e simplicidade que reside no bom senso sinaliza que o aloquemos na bela “ponte” chamada Conta Corrente. Seguindo essa linha é pertinente que, em contrapartida, estes custos sejam minimamente custeados pela sua própria fonte de receita, que é o funding – dinheiro para emprestar originário dos saldos médios positivos e espontâneos em contas correntes – além das eventuais receitas oriundas de saldos positivos não espontâneos, frutos de negociações de floating.

Percebemos que facilmente nossos interlocutores aceitam que o custo da estrutura administrativa e do sistema da Singular deveriam ser debitados do resultado gerado pelo saldo positivo médio do Conta Corrente, já que é uma boa fonte de funding, e admitem que o objetivo financeiro (não comercial) da conta corrente é buscar manter e reter os saldos positivos dos clientes, já que o uso do limite de cheque especial por aqueles que têm esta deferência, em conceito, seria para uso eventual de alguns desses clientes. A este custo deveríamos somar os dispêndios de mantermos satisfatórios os recursos próprios da Singular em seu FGC Fundo Garantidores de Crédito. Diante desta constatação, acreditamos que o custo de busca de funding através do saldo positivo do Conta Corrente sai do originalmente rotulado como “Zero”, para algo expressivo, o qual, em muitos casos chega ao ganho promovido por uma aplicação anual de 4% a.a. Deste modo, estamos falando de algo próximo a 50% da Selic.

2º grande custo – Custeio com as Sobras
Se, por um lado, devemos comemorar o crescimento das Sobras, por outro percebemos que isso impacta sobremaneira e sorrateiramente no custo do Depósito a Vista, e, em consequência, no custo geral de captação. Algo agravado nas Singulares que não remuneram o capital social. Então vejamos: quanto mais crescemos em Sobras, maiores valores nas AGOs iremos transferir para as contas de capital social dos nossos clientes que obtiveram saldo médio positivo em depósito a vista. Assim, fazemos o rateio das Sobras creditando contabilmente valores na conta capital destes sócios, debitando a Singular como contrapartida, de tal sorte que o que era legalmente da Singular passa a ser dos sócios.

Portanto, creditamos na conta capital social de cada sócio seu valor na medida de seu uso de nossas soluções, sejam juros pagos ou recebidos, saldo médio em conta corrente ou eventualmente algum outro tipo de ponderação. Esse rateio é um custo real para a Singular, pois se o tivesse transformado em reserva seria um acréscimo real de patrimônio. As Sobras têm a mesma lógica de dividendos de uma sociedade por ações, onde estes, após serem anualmente creditados aos sócios, passam a ser patrimônio desses investidores. Por mais que não desejemos, o capital social é legalmente dos sócios, tal qual é nosso o capital em participação na Petrobras, Vale etc. Sem dúvida é uma forma explícita de analisar este antigo e já engessado tema e precisamos doravante analisá-lo de forma arejada e desprovida de emoção, preceitos ou teorias.

Quebrando paradigmas – Breve estudo de caso
Agora imaginemos uma Singular que tenha um saldo médio em depósito a vista de R$ 1.000.000,00 e venha distribuir R$ 600.000,00 no rateio das Sobras aos sócios, sendo R$ 200.000,00 (1/3) distribuídos para os sócios que fizeram saldo médio em conta corrente.

Para sermos mais didáticos, imaginemos, então, que a Singular só tenha um sócio que fez em saldo médio R$ 1.000.000,00 e na AGO estaríamos creditando a ele R$ 200.000,00 (1/3 das Sobras) por estes depósitos positivos médios em sua conta corrente. Ou seja, esse cliente ganhou 33% a.a. de remuneração líquida. Pasmem: ganhou mais de 400% da Selic. Esta correlação sempre estará atrelada ao saldo médio em depósito a vista, ajustada as Sobras a creditar na conta capital ou na conta corrente do sócio e ao percentual do saldo médio em depósito a vista no rateio das Sobras.

Assim, quanto mais crescem nossas Sobras a serem rateadas entre os sócios, mais tendemos a encarecer nossa captação geral de recursos que venham a atender a demanda de créditos de varejo (recursos próprios). Devemos ter em mente que todas as Singulares são obrigadas a reter um grande percentual de sua captação nos fundos reguladores de contingência da Central, inclusive aportando ainda mais recursos neste fundo pelo eventual excesso de liquidez. Deste modo, agravamos este cenário, pois dificilmente elas ganharão nessas aplicações acima da Selic média.

O fato de estarmos diante de um modelo de negócio hiper-rentável pode ser uma das explicações do por que analisamos superficialmente o custo de funding – dinheiro para emprestar – sem nos debruçar para ver outras visões sobre um mesmo cenário, as quais podem dar mais assertividade a nossa leitura. Portanto, isso poderia ser uma das explicações do por que algumas contas gerenciais não fecham quando se mede a eficácia da Singular na compra e venda de seus recursos.

Perfis distintos de clientes frente às Sobras
Relembramos alguns dos nossos artigos que esclarecem que os investidores fazem detalhadamente contas para ver seu real ganho e não são ansiosos, pois sabem que assim terão remunerações ainda maiores. Eles realmente dão muito valor ao ganho extra nas Sobras anuais que premia suas aplicações, e também são eles que contribuem com uma grande parcela do depósito a vista. Nesses artigos também explicitamos que os tomadores de crédito de varejo são imediatistas e sedentos pelo crédito e não se importam tanto com as taxas e muito menos com quanto ganharão nas Sobras.

Distribuição de Sobras sobre Depósito a Vista:
Se estivermos certos na complexa conjectura proposta neste artigo, suportado pelos perfis distintos de clientes - investidor x tomador será prudente reduzir drasticamente as Sobras distribuídas ao Depósito a Vista já na próxima AGO, para que sejamos coerentes quanto ao percentual da Selic que esta remuneração irá representar (ex: máximo de 60%). Devemos também traçar alternativas para pagar valores competitivos (não exagerados) nas captações em depósito a prazo e premiá-los muito bem nas Sobras, de tal sorte que o ganho final líquido ao cliente seja relevante (ex: média de 120% da Selic), o que nos torna “previsíveis” quanto à possibilidade de sempre premiar com bônus futuros, e assim termos imbatíveis argumentos nesse produto. Como consequência, reduziremos nosso custo macro com a captação de “recursos próprios”. Esse tema será minuciosamente analisado no próximo e intrigante artigo: Engenharia Reversa nas Sobras. Aguardem.

Reflexão final:
Nunca usamos conclusão em nossos artigos, pois tudo é dinâmico e, como você, estudamos muito parar termos a certeza que o passado é uma boa base, mas um paradigma a ser desafiado. Certamente este é um dos mais complexos artigos que já lhe enviamos, e sem dúvida irá suscitar intensa análise e talvez, o início da oxigenação de nossa visão e gestão quanto ao que seja eficaz na compra de recursos baratos, serenos, diluídos e longos. A venda de nossos recursos, por mais inusitada que pareça, mesmo tendo riscos, é mais simples, previsível e somos nós que damos as cartas.

Até que entendamos ao contrário, passemos a considerar também o Depósito a Vista como uma cara fonte de funding, mas indubitavelmente uma bela, única e necessária “ponte” para o bom relacionamento com nossos clientes, além de facilitar nossa perpetuação.


Ricardo Coelho
Diretor da Ricardo Coelho Consult - Consultoria e Treinamento para Instituições Financeiras
Autor do livro: Repensando Banco de Varejo
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