Reflexões “Tostines” na luta pela transparência das Sobras e Reservas

Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? Os mais seniores vão se recordar desta inteligente campanha de biscoitos de 30 anos atrás que consolidou a marca em nosso varejo. Ela nos fazia refletir, ao mesmo tempo que nos sugeria que deveríamos dar crédito a esta marca pela sua “notória” qualidade, nos remetendo a sua compra sem remorsos. Essa frase ainda hoje tramita entre nós quando queremos dar dúvida sobre o que é realmente o fato gerador ou o demandador de uma realidade.

Ao trazermos essa reflexão para o Cooperativismo de Crédito, nos deparamos com os interesses antagônicos de dois temas atuais – Reservas e Sobras a distribuir entre os sócios. Assim, isto nos faz pensar: mais Sobras distribuídas aos sócios são um reforço comercial para o modelo de negócio ou são um reforço comercial para que os sócios aportem mais nas Reservas da sua instituição? E a resposta a ser dada pelos executivos da Singular deveria ser: “Depende, pois há dezenas de variáveis que pesam nesta decisão, como a necessidade de explicitar ganhos reais e crescentes diretamente aos sócios ou a de sinalizar uma gestão focada na sustentabilidade do modelo de negócio”.

Portanto, estamos diante de dispares interesses que tornam complexa a gestão das Reservas e Sobras a distribuir aos sócios. De um lado temos o forte interesse de esclarecidos e representativos sócios, em especial os fundadores e grandes investidores, que desejam que uma parcela significativa das Sobras migre para seu patrimônio. Algo prometido e que pode realmente ter acontecido nos últimos anos, inclusive através de crédito em sua conta corrente, ação esta que usualmente tem um efeito lastimável para a condução da Singular. Do outro lado temos os executivos que precisam gerir com foco na construção de ótimos alicerces de longo prazo para que o projeto se perpetue. Dessa forma, a Reserva é sem dúvida uma de suas maiores aliadas nesta longa caminhada em busca de alicerces para a perenidade com competitividade.
 
Reservas X Sobras – Revendo sua relevância
Recordemos que a Reserva não tem custo financeiro para a Singular e não há necessidade de devolvê-la. Sendo assim, é uma grande e saudável fonte de funding (dinheiro para emprestar)para longos créditos, além de ter enorme importância para superar épocas de instabilidades comerciais ou sazonais da Singular.

Contudo, para que possamos gerir coerentemente a Reserva, dependemos de fortes e crescentes Sobras e esta é uma das mais árduas missões dos executivos e de seus gestores seniores, pois será fruto da eficácia comercial da Singular frente a seu mercado. Ao obter relevantes Sobras, esses líderes anualmente irão rever a forma de distribuí-las na AGO para que seja fácil e racional a explicação individualizada aos bons sócios, de que realmente tiveram ganhos relevantes por concentrarem conosco suas demandas financeiras. A nosso ver, o restante da base, formada especialmente por um enorme contingente de tomadores de crédito de consumo, não se preocupa em saber quanto ganhou, já que fica satisfeito em saber que ganhou algo.

Assim sendo, somos sabedores da relevância da Reserva e como líderes devemos nos fazer duas oportunas perguntas. O volume que anualmente direcionamos a Reservas em nossas AGOs está coerente com a visão de longo prazo? O montante acumulado nestes anos de existência da Singular realmente suporta o projeto de perpetuação da Singular? Acreditamos que são poucas Singulares que poderiam nos dar uma resposta assertiva a estas indagações. Há fortes sinalizações de que a muitas geriram suas Reservas e Sobras a distribuir baseando-se em fatores históricos, políticos e de curto prazo, distante da real busca da sustentabilidade da Singular.

Quando o percentual das Sobras destinadas a Reservas fica exagerado
Contudo, por mais paradoxal que pareça, há algumas Singulares que alocam em Reservas mais de 70% de suas Sobras. Sem dúvida uma estratégia saudável para a perenidade da instituição, mas que denota um descompasso na gestão comercial que pode minar a atratividade do Capital Social e das Sobras, enquanto nossos fortes diferenciais comerciais. Neste cenário há pouca atratividade comercial das Sobras para os sócios, e este quadro se agrava ainda mais, pois muitas destas Singulares ainda não remuneram o Capital Social pela Selic, o que acarreta um incoerente inchaço de suas Sobras antes da distribuição. Ou seja, por não remunerar o capital social, a Singular relega a um segundo plano aqueles que mais confiam nela: seus reais donos que investem de forma autônoma no Capital Social. Assim não “premiam” seus “donos”, mas premiam com as Sobras os clientes que usam as soluções disponíveis em sua prateleira, em especial os que aplicam em depósito a prazo, depósito a vista e tomam crédito.

Diante dessa incoerência comercial de não privilegiar de forma racional primeiramente os seus sócios, é comum vermos que há anos os grandes aplicadores e os sócios fundadores não aportam novos recursos no capital social, pois sabem que este não será remunerado e ficará travado por décadas.
Vale ressaltar que os executivos da Singular precisam gerir o tema capital social através do exemplo mantendo um razoável saldo em cota capital. Contudo, muitos deles, estão há anos sem aportar novos recursos, e seus saldos crescem pelas Sobras creditadas nas AGOs.

Visando suavizar esse cenário, estas Singulares que destinam percentuais acima de 70% das Sobras nas Reservas e não remuneram o Capital Social pela Selic, adotam como forte estratégia de crescimento constante do capital social os aportes “voluntários” através de campanhas hiper criativas. Estas campanhas, contudo, são focadas em uma clientela pouco consciente da importância do capital social para a Singular, já que usualmente a quase totalidade dos aportes destes clientes “menos esclarecidos” está atrelada à sua “dependência” diante da liberação de crédito. Assim, estes clientes serão “convencidos” a aportar algum recurso em sua cota capital ou comprar “rifas” que terão seu valor parcial ou totalmente creditado em seu capital social. Diante deste cenário, por mais que essas Singulares digam ou façam belas campanhas cooperativistas, elas evoluem seus capitais sociais através de aportes não espontâneos de clientes que desconhecem os preceitos do cooperativismo de crédito, em especial se as agências desses clientes estiverem em uma praça urbana.

Perigo de inflar as Sobras Brutas com remuneração do Capital Social
Nesse contexto, precisamos mitigar os usuais equívocos diante da análise dos números brutos que muitas Singulares rotulam como Sobras. Ocorre que até recentemente muitas Singulares tinham fartas Sobras, pois não remuneravam o Capital Social pela Selic e com a inclusão desta “despesa” reduziu drasticamente de um ano para o outro este valor a ser apresentado na AGO. Com criatividade, evitaram apresentar Sobras menores que nos anos anteriores, quando ainda não tinham o custo de remunerar o Capital Social. Passaram, então, a explicitar de forma astuta o custo da remuneração do Capital Social como se fosse receita rotulada de Sobras.

Deste modo, ainda inflam as Sobras e apresentam nas AGOs elevados resultados, sendo que, diferente do restante dos itens a serem votados na plenária da AGO, a remuneração das Sobras não entra em discussão, já que é um ato contábil já sacramentado em 31/12 e o IR devido já foi recolhido na primeira semana do ano subseqüente a AGO. Ou seja, a remuneração do Capital Social é despesa contábil que onera a instituição quanto a geração direta de seu funding, tal qual ocorre com as despesas oriundas dos custos de captação em depósito a prazo. Portanto, é um valor que infla propositalmente o montante a ser levado nas Sobras, mas que não tem nada a ver com as Sobras a serem analisadas pela AGO quanto à sua destinação.

Diante dessa incoerência comercial e da pouca transparência frente à tão endeusada Governança que várias Singulares já “adotaram”, caberia ao Conselho de Administração e Fiscal propor prudência retirando definitivamente a remuneração paga ao capital social como um item das Sobras apresentadas a AGO. Sua manutenção não é fidedigna e infla os números divulgados na AGO, além de distorcer os comunicados aos sócios e a sociedade. Ressaltamos que o discernimento da composição efetiva das Sobras já é complexo para nós que labutamos há anos neste segmento, imaginemos, então, quão complicado é para os leigos, como grande parte de nossos clientes e da sociedade onde atuamos.

O pouco eco das Sobras Sociais.
Sabemos que cada vez mais teremos uma menor representatividade de nossos sócios em nossas AGOs, em especial se passarmos a não fornecer “refeições” e/ou sorteios aos presentes. E assim sendo, estes poucos sócios que lá vão podem até desejar saber o ganho financeiro social que a instituição premiou medianamente cada um de seus sócios, e os ganhos macros para a sociedade onde a Singular atua. Porém, não há dúvida que para cada um desses sócios, o importante é saber quanto ele lucrou com as Sobras por ter feito negócios conosco.

Assim, percebemos que inevitavelmente será a visão prática e individualista presente em cada um de nós que internamente usaremos como métrica para julgar se o Cooperativismo de Crédito é realmente mais racional comercialmente do que os bancos de varejo massificado. Para que possamos internalizar esta percepção, passemos a analisar os semblantes dos poucos presentes nas AGOs. Veremos que são dispersos quando se trata dos ganhos sociais da instituição, mas focados quando o tema passa a ser as Sobras a serem distribuídas aos sócios.

Temos que ter em vista que o ganho social deve ser um dos objetivos da instituição, porém primeiro devemos responder com eficácia aos anseios dos sócios capitalistas. Pois, mesmo diante dessas desconfortáveis exposições de motivos que explicita a racionalidade de nosso modelo de negócio, precisamos manter a divulgação das Sobras Sociais para reforçar socialmente o nosso modelo de negócio e nos manter como a solução financeira massificada mais adequada de “bancarização” dos brasileiros.

Governança deve buscar padronização do discurso frente ao sócio e à sociedade
Após essa contextualização, o cooperativismo de crédito precisa padronizar a integridade ética do que seriam as Sobras Reais a serem divulgadas aos sócios, centrais, órgão regulador, sociedade etc, tema abordado em nosso artigo: Sobra Real – A verdadeira visão das sobras de sua Singular. Isso permitiria que não pairasse dúvidas ao compararmos os resultados e a evolução de uma Singular ou quando a ranqueássemos frente a suas co-irmãs utilizando o termo puro “Sobras”. Esta necessária transparência deveria ser algo óbvio para todas as Singulares, em especial aquelas com governança, mas são raros os esforços para clarear esta compreensão.

Precisamos também gerir nossa Singular de forma que, ao falarmos de Sobras, claramente tenhamos em mente o seu verdadeiro resultado comercial líquido a ser levado para alocações diversas durante a AGO. Portanto, desde já devemos expurgar a remuneração do Capital Social, pois é um custo e reduz o resultado comercial. Dessas Sobras Reais é que destinamos uma parcela para Reservas, Fates e outra a ser distribuída aos sócios pela demanda de nossas soluções. Assim sendo, aproveitamos para reforçar o já descrito em vários artigos sobre a necessidade de termos Sobras evolutivas e comercialmente saudáveis e não apenas valores brutos crescentes que rotulamos de “vultosas” e que ofuscam sua translúcida leitura.

Assim, além de padronizar o conceito único de Sobras, cada Singular necessita também de um parâmetro balizador comercialmente acreditável para julgar se as Sobras apresentadas na AGO são representativas do potencial da base e do seu mercado ou apenas um número maior que a anterior. Pois, mesmo com crescentes Sobras, ela pode ser pífia frente ao potencial do mercado.
 
Vale relembrar que uma AGO é a maior e mais apropriada reunião para prestação de contas do executivo a seus sócios, e esta deve ser transparente e de fácil compreensão. Portanto, devemos nos limitar a apresentar números fidedignos e claros, e utilizar fortes argumentos quanto ao direcionamento da Singular frente aos desafios de sua perpetuação. Portanto, com ou sem governança, é um equívoco inflar as Sobras pelos juros pagos ao Capital Social, mesmo que seja algo vantajoso para a liderança da Singular frente a uma AGO, co-irmãs, sociedade etc. Por fim, na AGO, cabe também aos executivos reforçar e convocar para que os sócios ajam como partícipes atuantes dos ganhos e alicerces da instituição.

Reflexão final: Diante destas e outras tantas inquietudes que permeiam nosso modelo de negócio, fica a reflexão de que precisamos aproveitar o ensinamento da “Tostines” para que sejamos ainda mais transparentes e eficazes quanto à gestão da Singular, em especial quanto à gestão das Sobras Reais, já que dela é que resulta a decisão de gerir de forma harmônica os interesses dispares da Reserva e das Sobras a serem distribuídas aos Sócios.

Independente da governança, nossos sócios confiam em nossa capacidade e transparência. Portanto não duvidam que nós estejamos fazendo o possível para manter elevada a competitividade da Singular e que com estes ótimos resultados, os premiaremos de forma racional diante de uma saudável parceria comercial e institucional.

Reflitamos: O mercado é soberano e não aceitará que joguemos dama com peça de xadrez.


Ricardo Coelho
Diretor da Ricardo Coelho Consult - Consultoria e Treinamento para Instituições Financeiras
Autor do livro: Repensando Banco de Varejo
ricardocoelho@ricardocoelhoconsult.com.br
www.ricardocoelhoconsult.com.br
41-3569-0466 - 9973-9495

“Só o que muda, permanece” - Confúcio